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[JC NE10] Perfil no Twitter divulga supostas fraudes no sistema de cotas raciais das universidades federais de Pernambuco

Perfil no Twitter divulga supostas fraudes no sistema de cotas raciais das universidades federais de Pernambuco

A situação também ocorreu em outras partes do país, como em Sergipe, Rio de Janeiro, Alagoas e Amazonas

Larissa Lira

Publicado em 04/06/2020 às 20:05

REPRODUÇÃO / TWITTER

A conta criada no Twitter denuncia fraudes no sistema de cotas das universidades federais. - FOTO: REPRODUÇÃO / TWITTER

Leitura: 8min

Nesta quinta-feira (4), um perfil no Twitter registrado com o nome "Fraudadores de Cotas Pernambuco" começou a expor alunos das Universidades Federais do Estado, com a suposta premissa de que eles tinham fraudado as cotas raciais universitárias. A situação também ocorreu em outras partes do país, como em Sergipe, Rio de Janeiro, Alagoas e Amazonas. As denúncias foram postadas durante esta quinta no perfil, que foi excluído no começo da noite, pouco antes da publicação desta matéria.

O primeiro perfil com esse intuito foi criado nessa quarta-feira (3), na mesma rede social, com o nome "Fraudadores de Cotas". Ele expôs supostos alunos das Universidades do Rio de Janeiro. A conta foi excluída e não pode ser mais acessada. O perfil em Pernambuco cita a conta deletada em sua primeira postagem.

"Depois de tudo o que vimos no perfil @fraudadorescota, eu e meus amigos decidimos expor os fraudadores de cotas das universidades de Pernambuco", dizia a primeira postagem da conta que já possuia 4.906 seguidores - até a publicação desta matéria, com o perfil ativo -. Nos posts seguintes, feitos no decorrer desta quinta, a conta expõe o nome, o curso, a modalidade da cota, o ano de ingresso na universidade e a fotos dos alunos. Nos comentários, alguns usuários colocam as redes sociais dos estudantes expostos. 

 

Em uma das postagens, o reitor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, Marcelo Leão, comentou e explicou sobre a comissão da universidade que avalia estas questões. No final desta tarde, a UFRPE postou um comunicado oficial sobre as 'denúncias'.

Leia na integra:

Nota oficial: denúncias sobre possíveis fraudes no sistema de cotas

Diante das denúncias de possíveis fraudes no sistema de cotas, envolvendo universidades em todo o Brasil, a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) reafirma o apoio e a defesa da Lei de Cotas, que existe com o objetivo de ajudar a corrigir injustiças sociais históricas do País. A inclusão deve ser sempre um princípio norteador das Universidades Públicas Brasileira. A Administração Superior comunica, no entanto, que qualquer irregularidade ou fraude que envolva estudantes da Instituição deve ser denunciada de maneira oficial a UFRPE, por meio de encaminhamento à Ouvidoria Geral – ouvidoria.reitoria@ufrpe.br – para as devidas apurações legais, e as providências cabíveis decorrentes.

 

Denúncias legais

Em entrevista ao JC, a pró-reitora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Magna do Carmo, explica o processo legal para registrar esse tipo de denúncia na universidade.

"Tomamos conhecimento dessas informações e notamos que todos os alunos da UFPE, que foram expostos na conta, ingressaram na universidade entre 2016 e 2018. As denúncias no Sistema de Cotas na Universidade têm um procedimento próprio a ser seguido. Elas precisam ser feitas à Ouvidoria da instituição ou à Pró-Reitoria para Assuntos Acadêmicos (Proacad), via processo administrativo. Para que a denúncia seja efetuada precisa ter o CPF de quem está denunciando e, se possível, as provas em anexo". 

Após o registro, o Proacad recebe a acusação e encaminha para Comissão de Sindicância, que analisa todos os tipos de denúncias na universidade. "Após a análise da Comissão que irá ouvir as partes envolvidas na denúncia é apresentado um parecer. Caso seja comprovada a fraude, o estudante é desvinculado da instituição", completa. A pró-reitora também afirma que essa é a forma correta de fazer denúncias, não em redes sociais ou em outros meios. 

Sistema de heteroidentificação

Em 2019, a Universidade Federal de Pernambuco instituiu a Comissão de Heteroidentificação. Nos anos anteriores, os alunos ingressavam na Universidade apenas por meio de autodeclaração. "A partir do momento que foi instituída a Comissão, o estudante faz a inscrição pelo Sisu e, mesmo sendo aprovado, só ingressa na universidade se for aprovado pela Comissão. Caso seja reprovado, o estudante poderá recorrer ao parecer, que será analisado por outra instância", pontua Magna.

Caso o estudante seja aprovado no sistema de heretoidentificação, ele faz a matrícula. Caso não, outra pessoa é chamada. A pró-reitora também salienta que, no momento, não há nenhum processo de denúncia legal para ser analisada pela Comissão.

Difamação 

Para os estudantes expostos nas postagens, o advogado criminalista e especialista em crimes cibernéticos Guilherme Gueiros explica como agir diante desses casos. "Os estudantes que se sentirem lesados podem e devem procurar fazer um B.O, de preferência na Delegacia de Crimes Cibernéticos. Essas postagens configuram-se como crime contra a honra, para ser mais específico como difamação, que é quando a reputação é atingida. Chamada também de honra objetiva", esclarece. 

Guilherme pontua que esse tipo de crime é chamado de Crime de Ação Penal Privada e é movido pela própria vítima. "O procedimento certo é fazer o boletim, onde será dada uma investigação policial para identificar quem é o proprietário desta conta. Depois disso, é que uma ação penal, propriamente dita, poderá ser iniciada", conclui. 

Momento propício

Esses perfis nascem em meio ao movimento de escala mundial contra o fim do racismo, que teve inicio nos Estados Unidos com a morte do norte-americano negro George Floyd por uma policial branco, em 25 de maio. Desde então, o movimento #BlackLifesMatter (Vidas Negras Importam, em tradução livre) vem ganhando força nas ruas com as manifestações e nas redes sociais. Em Recife, o movimento ganhou ainda mais voz após a morte de Miguel Otávio, uma criança negra de 5 anos que morreu após cair de um prédio de 35 metros devido negligência da empregadora da sua mãe, que é empregada doméstica.

O objetivo das contas é denunciar aqueles que estão usufruindo das cotas raciais sem precisar delas, mas fazem isso de forma ilegal, tirando a legitimidade da causa.

 

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